Hilda Alão

Escrever é uma forma de amar.

Textos

O CAÇADOR E O NATAL
Era dia de Natal. O dia amanheceu frio com uma fina garoa que molhava lentamente o corpo e a alma. Na casinha, perto da floresta, a família acordara e o pai, um hábil caçador, depois de tomar o café, pegou seu arco e flecha e disse para a esposa:
- Hoje eu pegarei um gordo cervo para o nosso jantar.
- Marido, hoje é dia santo! Dia do nascimento de Nosso Senhor Jesus. Deixe os bichinhos em paz. Nós temos tantos alimentos, não precisamos de mais.
A argumentação da mulher não adiantou. O homem embrenhou-se no mato em busca do cervo gordo para o jantar. Quando estava perto do território dos cervos ele avistou um, jovem e gordo, pastando despreocupadamente. O caçador afastou-se para preparar o arco e a flecha. Foi andando para trás sem prestar atenção ao terreno onde pisava. Parou. Preparou o arco e flecha, apontou e, ao dar mais um passo para trás, caiu em um buraco fundo. E agora? Como sair dali? Gritar não adiantava, estava muito longe de sua casa.  Sem saber que atitude tomar, ele sentou-se no chão olhando para cima. Só via as copas das árvores antigas e um pedacinho do céu. Estava frio demais naquele buraco. As horas foram passando e nada. Não ouvia passos de gente nem barulho de animais. Lembrou-se das palavras da esposa. Ah! Se ele tivesse ouvido não estaria naquela estranha situação.
Como no inverno escurece cedo, bateu a preocupação. Ele não podia passar a noite ali. Precisava pensar em uma solução. Mas que solução? Ele não tinha nada que pudesse usar para sair do buraco. As paredes do buraco eram escorregadias. Escalar era impossível. Pensou nas palavras o padre da aldeia: “os animais também são filhos de Deus e nós, os humanos, devemos respeitá-los e protegê-los...”. O homem começou a rezar pedindo ajuda ao céu. Ainda não havia terminado a oração quando percebeu uma movimentação na copa da árvore que ele avistava lá do fundo do buraco. Seria gente? Será que outro caçador ouvira seus gritos? Que nada! Era só um macaco que pulava entre os galhos. O animal subiu mais alto e, por entre as folhas, se pôs a observar o homem dentro o buraco.
- Meu Deus, ajude-me! Dê-me forças para sair daqui!
Para surpresa do caçador, o macaco começou a puxar os cipós, emaranhados entre os galhos da enorme árvore, e foi jogando todos para baixo. Um dos cipós caiu no buraco e por mais que o homem se esticasse não consegui alcançá-lo. Que desespero! O macaco continuava lá, no alto da árvore, olhando o esforço do caçador para sair da situação perigosa em que se metera. De repente o animal desceu da árvore fazendo muito barulho e desapareceu. O caçador sentou-se e chorou. Chorou muito. Era o primeiro natal que passaria longe da família e o pior é que não tinha como avisar ninguém.
O dia já estava chegando ao final. Um forte barulho alertou o caçador. Rapidamente ele ficou em pé e pediu fervorosamente, “Deus, salve a minha vida...”, ao ver, na borda do buraco, uma grande pedra prestes a rolar para dentro e mais surpreso ficou ao ver que o macaco guinchava como se quisesse dizer alguma coisa e fazia força empurrando a pedra para dentro do buraco. O caçador encostou-se na parede e fechou os olhos com força imaginando o impacto da pedra nas suas pernas. A pedra caiu quase tocando seus pés. Ele abriu os olhos e o macaco estava lá pulando e guinchando muito alto parecia dar instruções. O homem levou uns bons minutos para entender. Depois, mais calmo, foi empurrando a pedra para o canto onde o cipó, jogado pelo macaco, estava pendurado. Subindo na pedra e usando toda a sua força para dar um salto ele alcançou o cipó saindo do buraco no momento em que começava a escurecer.
Quando chegou em casa já estava escuro. A temperatura caíra tanto que já havia pequenas formações de gelo sobre a relva. A família, preocupadíssima, o recebeu de braços abertos. O caçador contou tudo o que ocorreu com ele. A esposa, muito séria, disse:
- Eu lhe disse que hoje é um dia santo e que nós temos muitos alimentos. Para quê tirar a vida de animais só para satisfazer a gula? Veja que Deus usou um animal para atender as suas preces.
- Verdade. Eu reconheço e nunca mais caçarei qualquer bicho.
Para o caçador aquele foi um Natal de aprendizado, de fé e de reconhecimento. Deus atende as nossas preces utilizando-se dos mais inusitados meios. Saibam crianças que o Pai celeste não desampara seus filhos. Feliz Natal!

23/08/11

(histórias que contava para o meu neto)
Maria Hilda de Jesus Alão
Enviado por Maria Hilda de Jesus Alão em 23/08/2011


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